Há uma espécie de loucura que não adoece: desorganiza as certezas para que a alma possa respirar.

Francisco de Assis talvez tenha sido um desses homens que perderam o mundo para encontrar o Universo.

Enquanto os homens construíam muros para proteger suas pequenas eternidades, ele conversava com os pássaros, abraçava os pobres e reconhecia no rosto da criação uma espécie de assinatura de Deus.

Francisco não queria possuir o mistério. Queria pertencer a ele.

No seu Trânsito, em 3 de outubro, não celebramos simplesmente a morte de um homem. Contemplamos a passagem de alguém que fez da própria existência uma espécie de oração encarnada.

Cristo era sua vertigem, seu desassossego, sua paixão pelo humano. Não um Deus distante, perdido nas geometrias do céu, mas o Deus que se deixa encontrar na carne ferida do mundo.

E que extraordinária contradição: quanto mais Francisco se esvaziava de si, mais o infinito parecia habitá-lo.

Talvez seja isso a santidade: permitir que Deus desarrume nossa arrogância, que o amor desobedeça ao ego e que a vida deixe de ser propriedade para se tornar comunhão.

Oito séculos depois, Francisco continua caminhando entre nós, como uma pergunta que não aceita respostas fáceis:

Que espécie de humanidade nascerá quando deixarmos de tratar o mundo como objeto e começarmos a reconhecê-lo como irmão?

Que Cristo nos ensine essa loucura bonita de amar.

Que a nossa fé tenha menos certezas orgulhosas e mais mãos estendidas.

E que, quando chegar nossa hora de atravessar o silêncio, tenhamos vivido de tal maneira que o amor ainda saiba pronunciar nosso nome.

Paz e Bem!

Rev. Alexandre Teixeira Ivan