De 1º de setembro a 04 de outubro, é celebrado o chamado Tempo da Criação, uma campanha ecumênica proposta pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI), onde as igrejas cristãs são chamadas a rezar e celebrar a Criação, promovendo estilos de vida sustentáveis. Todos os anos, o Tempo da Criação inicia no dia 1º de setembro por ser o primeiro dia do ano da Igreja Ortodoxa, estendendo-se até 4 de outubro, que é a Festa de São Francisco de Assis, nas tradições católica romana e anglicana, entre outras denominações cristãs. É um tempo de oração, reflexão sobre o cuidado e o uso justo dos dons da natureza que recebemos de Deus, e assim, renovar nosso compromisso ecológico, enquanto comunidade cristã. Conforme o Dr. Guillermo Kerber, assessor do CMI e, anteriormente, diretor dos programas de Mudanças Climáticas, o Tempo da Criação contribui para a ecojustiça, pois “a política do CMI sobre a mudança climática reflete o entendimento ecumênico de que esta é uma questão de justiça”.

A proposta do Tempo da Criação ultrapassa, portanto, uma perspectiva ambiental. Trata-se de reconhecer que a crise ecológica possui profundas dimensões sociais, econômicas, éticas e espirituais. A degradação da natureza não atinge todas as pessoas da mesma maneira. Populações pobres e vulnerabilizadas, comunidades tradicionais, povos indígenas e populações que dependem diretamente dos recursos naturais encontram-se frequentemente entre aquelas que sofrem de maneira mais intensa os efeitos da degradação ambiental e das mudanças climáticas. Por isso, falar em cuidado da Criação é também falar de justiça.

É justamente nessa perspectiva que a contribuição de Guillermo Kerber se torna particularmente significativa para a reflexão teológica latino-americana. Em sua obra O ecológico e a teologia latino-americana, publicada pela Editora Sulina em 2006, Kerber procura estabelecer um diálogo entre a problemática ecológica e a tradição da teologia latino-americana da libertação. O autor parte de questões como as mudanças climáticas, o aquecimento global, a escassez de água potável e a contaminação da água e do ar para perguntar como esses desafios podem ser compreendidos a partir de uma perspectiva teológica e ética. Essa abordagem é importante porque impede que a ecologia seja compreendida como uma preocupação isolada da realidade humana. Pois, a reflexão sobre a crise climática está relacionada ao imperativo ético da justiça climática, à renovação da teologia da Criação e à dimensão espiritual da resposta cristã. Em seu estudo sobre as teologias do Sul, o autor destaca justamente essa articulação entre justiça, libertação, criação e espiritualidade.

A água que gera vida

O tema escolhido para o Tempo da Criação de 2026 é “Água Viva”, tendo como referência bíblica principal Ezequiel 47.1-12. A imagem apresentada pelo profeta é profundamente significativa: do templo nasce um pequeno curso de água que vai crescendo até transformar-se em um rio. À medida que suas águas avançam, aquilo que estava morto começa a viver novamente. O texto bíblico afirma: “Por onde passar este rio, haverá todo tipo de seres vivos. [...] Por onde passar o rio, tudo viverá.” (Ezequiel 47.9)

A visão de Ezequiel acontece em um contexto marcado pela experiência do exílio, da perda e da destruição. É justamente nesse cenário que surge uma imagem de esperança. A água que brota do templo não permanece restrita ao espaço sagrado: ela corre para fora, alcança terras áridas, chega às águas salgadas e produz vida. Há aqui uma importante chave para a teologia ecológica: a vida de Deus não se encerra no templo; ela transborda para toda a Criação.

O tema oficial de 2026 retoma exatamente essa dinâmica. O símbolo escolhido é a “Imersão em Água Viva”, convidando as comunidades cristãs não apenas a contemplar a água, mas a entrar nela, deixar-se transformar por ela e assumir responsabilidade pela renovação da Criação.

A metáfora da imersão é particularmente forte. Não somos chamados simplesmente a observar a crise ecológica de fora. Somos convidados a entrar nela, reconhecer nossa responsabilidade e participar dos processos de transformação. A espiritualidade ecológica não pode ser uma espiritualidade de espectadores.

Da contemplação à responsabilidade

A água é elemento fundamental para a existência. Sem água não há vida humana, animal ou vegetal. Entretanto, a relação contemporânea da humanidade com a água revela uma profunda contradição: ao mesmo tempo em que reconhecemos sua indispensabilidade, contaminamos rios, degradamos nascentes, destruímos ecossistemas e transformamos bens comuns em objetos de exploração econômica.

Por isso, a pergunta ecológica é também uma pergunta espiritual: que relação estabelecemos com a vida que Deus nos confiou?

A tradição bíblica não apresenta a Criação como objeto descartável, mas como realidade que pertence a Deus e da qual o ser humano faz parte. O ser humano não está fora da Criação, mas é criatura entre criaturas e possui uma responsabilidade particular diante da comunidade da vida.

Nesse sentido, a ecoteologia latino-americana contribui para superar uma visão individualista da espiritualidade. A preocupação com a Terra precisa estar relacionada à preocupação com os pobres, com as pessoas vulnerabilizadas e com aqueles que têm seus direitos fundamentais ameaçados. Podemos relacionar diretamente a mudança climática à justiça, à teologia da Criação e à espiritualidade. A crise ecológica, portanto, não é apenas uma crise da natureza. É também uma crise de relações: relação com Deus, relação com o próximo e relação com a própria Terra.

Imersão como conversão

A expressão “imersão em água viva” pode ser compreendida, então, como uma metáfora de conversão. Mergulhar significa abandonar a margem. Na margem, podemos observar. Dentro da água, somos envolvidos. Na margem, podemos falar sobre a crise ecológica. Na água, somos chamados a transformar nossas práticas. Na margem, a Criação pode parecer algo externo a nós. Na imersão, percebemos que fazemos parte de uma mesma comunidade da vida.

É nesse sentido que o Tempo da Criação pode ser compreendido como um tempo de metanoia ecológica: uma mudança de mentalidade, de sensibilidade e de prática. Não basta acrescentar algumas ações ambientais ao calendário da Igreja. É necessário permitir que a preocupação com a Criação atravesse a espiritualidade, a liturgia, a educação, a missão e a ação diaconal das comunidades cristãs.

A Igreja é chamada a perguntar não apenas “o que devemos fazer pela natureza?”, mas também “que tipo de Igreja precisamos ser diante de uma Criação ferida?” Essa pergunta desloca a ecologia de uma atividade periférica para o centro da missão cristã.

A Igreja como parte do rio

A imagem de Ezequiel apresenta um movimento muito bonito: a água nasce no santuário, mas não permanece nele. Ela sai, percorre a terra e produz vida. Também a Igreja é chamada a sair de si. A celebração litúrgica precisa transformar-se em compromisso com a vida. A oração precisa encontrar expressão na ação. A espiritualidade precisa produzir responsabilidade. A fé precisa tornar-se cuidado.

Nesse sentido, o Tempo da Criação pode ser compreendido como uma oportunidade para recuperar uma dimensão essencial da missão cristã: ser presença de vida em meio às realidades que experimentam a morte.

Onde houver um rio contaminado, a Igreja é chamada a defender a vida.

Onde houver uma comunidade atingida pela falta de água, a Igreja é chamada a solidarizar-se.

Onde houver uma população vulnerabilizada pela crise climática, a Igreja é chamada a estar presente.

Onde houver destruição ambiental, a Igreja é chamada a testemunhar que a Criação não é mercadoria, mas dom.

E onde houver esperança, a Igreja é chamada a ajudá-la a florescer.

A reflexão contemporânea sobre ecoteologia latino-americana tem insistido justamente nessa integração entre ecologia, espiritualidade, ética e ação. A ecologia não pode ser reduzida a um tema entre tantos outros: ela desafia a própria maneira como a teologia compreende a relação entre Deus, humanidade e Criação.

Água viva e esperança

Entretanto, a mensagem de Ezequiel não é uma mensagem de medo. É uma mensagem de esperança. A visão profética não começa com uma floresta exuberante, com um rio abundante ou com um mundo já restaurado. Ela começa com um pequeno fluxo de água. Talvez essa seja uma das mensagens mais importantes para as comunidades cristãs diante da crise ecológica contemporânea. Nem sempre veremos imediatamente os resultados de nossas ações. Mas pequenos gestos podem tornar-se parte de um rio maior.

Uma nascente protegida.

Uma árvore plantada.

Um rio cuidado e despoluído.

Uma comunidade mobilizada.

Uma criança educada para respeitar a natureza.

Uma celebração que desperta consciência.

Uma igreja que reduz seu impacto ambiental.

Uma comunidade que defende aqueles que sofrem com a crise climática.

Uma ação diaconal que promove dignidade.

São pequenos sinais. Mas, como na visão de Ezequiel, a água cresce à medida que avança.

Conclusão: entrar na água

O Tempo da Criação 2026 nos convida, portanto, a algo mais profundo do que celebrar a natureza durante algumas semanas. O convite é para uma verdadeira imersão.

Imersão na realidade da Criação.

Imersão no clamor da Terra.

Imersão no sofrimento das pessoas que mais sentem os efeitos da crise ambiental.

Imersão na espiritualidade do cuidado.

Imersão na esperança de que Deus continua fazendo brotar vida onde aparentemente existe apenas aridez.

A imagem de Ezequiel permanece atual: “por onde passar o rio, tudo viverá” (Ez 47.9). A pergunta que permanece para nós é: por onde estamos permitindo que passe o rio da vida? Que nossas comunidades cristãs possam tornar-se canais dessa água viva. Que nossa liturgia desperte cuidado, que nossa teologia gere responsabilidade, que nossa espiritualidade produza compromisso e que nossa diaconia alcance também a Criação.

O Tempo da Criação nos recorda que não estamos diante da Criação como espectadores. Somos parte dela.E, por isso, o chamado de 2026 não é apenas para contemplar a água viva.

É para entrar nela.

É para deixar-se transformar.

É para trabalhar pela cura da Terra.

É para defender a vida.

É para caminhar juntos como comunidade de fé, esperança e amor.

Porque, quando a água viva corre, tudo pode viver novamente.

O Tempo da Criação provoca para o debate sobre a Terra e toda sua biodiversidade. Ajuda as pessoas a compreenderem o sentido da humanidade como uma comunidade de vida onde todos são responsáveis por todos e por tudo. É o despertar para um olhar ecológico e holístico, com a compreensão de que somos a comunidade Terra. Nosso Planeta é uma comunidade de vida e os seres humanos precisam compreender seu lugar em meio a toda a biodiversidade existente na Terra. Ou seja, o Tempo da Criação quer fazer o ser humano deixar a natureza ser ela mesma e assumir uma postura fraternal e amorosa frente a todas as formas de vida. É o momento para o despertar da ciência de que somos partes da Terra e que estamos o tempo todo interferindo positiva ou negativamente na vida do planeta. E com o Tempo da Criação podemos influenciar na harmonia da vida.

Além de um evento adicionado ao calendário litúrgico das igrejas cristãs, o Tempo da Criação é o contínuo despertar para a mudança, é a conversão ecológica, onde o ser humano, numa visão holística, compreende seu lugar na criação. Tudo é criatura de Deus, que muito ama todas as formas de vida que criou. Esta é a oportunidade em que os cristãos podem encorajar uns aos outros e a toda a humanidade quanto aos fenômenos das mudanças climáticas. Em quanto pessoas cristãs, não devemos dizer para o mundo que é hora de entrar em pânico. Na verdade, isso não muda muita coisa. O que realmente transforma é resgatar a esperança e, num clima de conversão, reafirmar o compromisso ético de mudanças nas atitudes humanas para deter a injustiça climática. Podemos contribuir com a mudança, partilhando boas novas, declarando que haverá vida para a nossa e para as futuras gerações, se permitirmos o fenômeno ecológico e espiritual da imersão em água viva.

Referências:

CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS. Tiempo de la Creación 2026: Agua viva. Disponível em: <https://oikoumene.org/es/events/season-of-creation-2026-living-water>

KERBER, Guillermo. Ecologia, nova cosmologia e implicações teológicas. Revista Eclesiástica Brasileira, v. 70, n. 277, p. 157-165, 2010. Disponível em:  https://periodicos.pucminas.br/horizonte/article/view/P.2175-5841.2010v8n17p45

KERBER, Guillermo. O ecológico e a teologia latino-americana. Porto Alegre: Sulina, 2006.

PEREIRA, Pilato. Ecologia Integral: justiça e paz com a criação. Porto Alegre: Inclusividade, 2022

TEMPO DA CRIAÇÃO. Água Viva: Tema e símbolo do Tempo da Criação 2026. A página oficial apresenta Ezequiel 47.1-12 e a “Imersão em Água Viva” como eixo temático de 2026. Disponível em: https://seasonofcreation.org/pt/

Reverendo Pilato Pereira