Terra e tempo não são mercadorias: à luz da Páscoa, povos indígenas e classe trabalhadora convocam um levante contra o mesmo faraó
Herlon A. Bezerra
Reverendo (IEAB/DAR), professor (IFSertãoPE), sindicalista (Sinasefe) e militante do PT e MBP
Querida gente leitora do Brasil de Fato Pernambuco, desde que vim morar em nossa região sertaneja, de onde lhes escrevo, tenho me dado conta de quanto a obra de Paulo Freire bebe de lições ancestrais: assim como “não há esperança na pura espera”, esperar chuva não significa cruzar os braços.
Por aqui, a Caatinga e a gente sertaneja sabem cultivar vida na estiagem, mirando no horizonte o Velho Chico e seus rios, riachos, ilhas e vazantes, mesmo feridos por esgotos e agrotóxicos. Entre aldeias, roças, perímetros irrigados e bairros, a classe trabalhadora, em sua diversidade regional, inventa, diariamente, modos de viver com salário curto e tempo contado.
Uma feliz coincidência no calendário cristão ocidental de uso ecumênico nos convida, neste ano de 2026, a meditar sobre outras expressões dessa insistência da vida: tanto o Dia dos Povos Indígenas, em 19 de abril, quanto o Dia da Classe Trabalhadora, em 1º de maio, se dão no Tempo Pascal. Sob essa luz, datas que muitas vezes celebramos separadas podem ser compreendidas em conjunto, como sinais da vida que insiste, resiste e se levanta quando parecia vencida.
Para quem se atenta às relações entre política e religião, há muito a aprender no reconhecimento do sentido pascal comum às lutas dos povos indígenas e da classe trabalhadora. Afinal, celebrar a Páscoa não se reduz a rituais de apaziguamento diante das injustiças, nem à espera escapista de um além fora da história. Ressurreição e Vida Abundante (essa vida que insiste em viver) não são promessas abstratas: são palavras de fé para reconhecer, aqui e agora, a vida que se levanta contra a tentativa capitalista de transformar terra e tempo em mercadoria.
Em Pernambuco, a colonial invisibilização indígena ainda faz muita gente perguntar: “oxe, e tem índio aqui?”. Ora, se tem! Não só tem, como povos e identidades historicamente forçados ao silêncio vêm retomando visibilidade pública desde a Constituição de 1988, que reconheceu direitos originários e abriu condições para enfrentar, ainda que parcialmente, séculos de apagamento iniciados com a invasão europeia do século XVI.
Em 1991, viviam aqui 10.576 pessoas autodeclaradas indígenas; em 2000, esse número passou para 34.669; em 2010, 53.284, e, em 2022, para 106.646. Entre povos e territorialidades indígenas entre nós estão Atikum, Atikum Salgueiro, Fulni-ô, Kambiwá, Kapinawá, Pankará, Pankararu, Pankararu Entre Serras, Pipipã, Truká, Tuxá, Truká Tapera, Tuxí de Belém do São Francisco, Xukuru de Cimbres e Xukuru do Ororubá.
Esse crescimento de mais de dez vezes não é simples demografia: expressa reemergência, etnogênese, retomada política e afirmação pública de identidades historicamente forçadas ao silêncio. É ressurreição política: vida superando a morte social.
Cerca de 68% das pessoas autodeclaradas indígenas em Pernambuco, aproximadamente 72.332, residem, segundo o Censo de 2022, fora de territórios oficiais. Vivendo nos núcleos urbanos regionais, compartilham com as demais frações do povo na região as agruras das lutas por terra, emprego, educação, saúde, moradia e demais direitos. A classe trabalhadora em nosso estado está, portanto, atravessada e também constituída por indígenas.
Cerca de 68% das pessoas autodeclaradas indígenas em Pernambuco – aproximadamente 72.332 - viviam, segundo o Censo de 2022, fora de territórios oficialmente reconhecidos. Desse modo, essas pessoas compartilham com as demais frações do povo trabalhador a vida nas cidades, periferias, roças, escolas, postos de saúde e espaços de trabalho, assim como as lutas por terra, emprego, educação, saúde, moradia e direitos. A classe trabalhadora pernambucana está, portanto, atravessada e também constituída por indígenas. Daí que nossas lutas étnicas e por direitos trabalhistas e de cidadania estejam tão integradas.
Edivânia Granja, Roberto Florêncio e Carlos Santos informam-nos como as mobilizações étnicas na Bacia do São Francisco correlacionam conflitos socioambientais relativos a território e recursos naturais com dimensões simbólicas da vida. Um campo exemplar é a luta que, desde os anos 1980, essas populações indígenas têm desenvolvido por meio da COPIPE (Comissão de Professoras/es Indígenas de Pernambuco), em busca de educação escolar específica, diferenciada e intercultural. Em seu lastro, a cultura escolar e científica regional também se transforma, ensaiando a superação de paradigmas de controle, assimilação e integração e produzindo novos territórios geográficos e epistêmicos.
Para nós, povos indígenas não são corpos sepultados num idílico passado amazônico. São vida presente, de diferentes formas, entre as 73,3 mil pessoas direta ou indiretamente empregadas pelo bilionário agronegócio exportador do Submédio São Francisco. Um setor cuja autopropaganda de progresso e modernização tenta envernizar a insustentabilidade da concentração de renda e exploração, excludentes e desumanas, em que se baseia: quem controla a água? Quem fica com a riqueza e pode garantir educação e saúde para sua família? Que corpos podam, colhem, embalam, respiram veneno, cumprem metas impossíveis e voltam para casa sem tempo de viver plenamente?
O capital sabe juntar, em seu devir-faraó, o que nossa análise às vezes separa. Avança sobre o Semiárido, águas, minérios e territórios tradicionais ao mesmo tempo que avança sobre o corpo das trabalhadoras, sobre a jornada, o domingo, a saúde, o sono e a convivência familiar. Quando não consegue tomar a terra, tenta cercá-la por lei. Quando não consegue tomar tudo do salário, toma o tempo.
Assim, mesmo contando algumas vitórias no âmbito de suas lutas étnicas, nosso povo tem ainda vivido, pois, um calvário classista. Isso, porém, não deve ser motivo para desânimo. Esperançar é, afinal, agir diante das contradições. É manter viva a confiança de que, mesmo com a morte sempre à espreita, a vida ressuscita quando cuidadosamente esperançada via ação libertadora.
As histórias bíblicas estão cheias de ensino sobre essa dinâmica. Já conversamos aqui, por exemplo, sobre o Jubileu (Levítico 25): uma instituição sabática de cuidado com a terra, com as endividadas e com as escravizadas por necessidade. A cada cinquenta anos, o Jubileu deveria desafiar a cultura da ganância: deixar a terra descansar, interromper e perdoar dívidas, libertar pessoas escravizadas e impedir que a propriedade se tornasse instrumento eterno de opressão.
Quando, há cerca de 500 anos, a cristandade ibérica nos invadiu empunhando bíblias e espadas, encontrou aqui modos de esperançar que resistiram a seu colonialismo. Cosmologias originárias, como a Terra Sem Males, e tradições andinas e ameríndias do Bem Viver articulam, de forma própria, economia, profecia, reciprocidade, dignidade da terra e ruptura com a acumulação sem futuro.
Não se trata de alinhar Terra Sem Mal, Bem Viver, Reino de Deus e emancipação do trabalho, como se fossem sinônimos domesticáveis por uma teoria geral. Trata-se de colocá-los em diálogo interdiscursivo, reconhecendo que a verdade não aparece como posse de um centro, mas como travessia entre margens. Em chave de teologias indígenas e decoloniais, trata-se de dar efeitos políticos às experiências libertadoras do Sagrado vividas em diferentes horizontes civilizatórios.
Para caminhar juntas, essas tradições não precisam se confundir nem se reduzir umas às outras. Podem reconhecer-se num levante intercultural contra o mesmo faraó: esse poder que exige tijolos sem descanso, cerca a terra, controla a água, captura o trabalho e o tempo, chama exploração de progresso e transforma tudo em mercadoria.
Nesse ponto, a tradição cristã precisa confessar sua culpa. Ontem, houve cruzes de conquista, bênçãos para impérios, catequeses de apagamento, teologias da propriedade colonial e escravização. Hoje, há púlpitos em defesa do latifúndio, do garimpo, do agronegócio predatório, das armas, do massacre indígena, quilombola e camponês, do racismo, do machismo, da homofobia, da precarização trabalhista e da prosperidade individual.
Mas há também cristianismo popular, comunidades eclesiais de base, pastorais sociais, terreiros em relação fraterna, mesas partilhadas e Bíblias lidas com e a partir do povo. Há tradições ecumênicas que ensinam que missão cristã não é apenas culto e caridade, mas também transformação das estruturas injustas da sociedade e cuidado com a criação; há repúdio à Doutrina da Descoberta; há reconhecimento, estímulo e apoio público ao papel do movimento sindical na melhoria de salários, benefícios, condições de trabalho e dignidade do trabalho.
Temos, portanto, motivos para a esperança pascal, sob cuja luz a luta indígena e a luta da classe trabalhadora não são concorrentes. Nesse sentido, vale estudarmos melhor o Projeto Brasil Popular, uma das melhores gramáticas políticas contemporâneas para quem não coloca em gavetas separadas as lutas por reconhecimento, Reforma Agrária Popular e fim da escala 6x1.
Seu melhor ponto, neste contexto, é a recusa de uma ideia estreita de desenvolvimento. Não basta crescer. É preciso perguntar quem vive melhor, quem decide, quem trabalha, quem descansa, quem come, quem tem terra, água e futuro.
Neste Tempo Pascal, a Terra Sem Males e a emancipação do trabalho nos chamam a um levante cotidiano: defender a vida onde ela está sendo transformada em mercadoria. Apoiar demarcações; fortalecer sindicatos; combater a escala 6x1; defender a Caatinga, o São Francisco e os territórios; fortalecer agricultura familiar, agroecologia e organizações populares; disputar nossas comunidades de fé contra o Evangelho falsificado de Mamon.